Com cerca de 80% de suas florestas ainda intocadas, o Acre é um dos estados menos desmatados da Amazônia brasileira. Apesar de representar apenas 1,7% da superfície terrestre do Brasil, é de grande importância ecológica, pois está numa zona de transição entre a planície amazônica e os Andes, com biodiversidade de ambas as regiões.

         Contudo, nas últimas três décadas, a pecuária tem se tornado uma grande ameaça para as florestas do Acre. O rebanho já supera em quatro vezes a população humana do estado.

         Em 1990, a população do Acre era de 400 mil habitantes, com um número quase idêntico de cabeças de gado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2020 a população humana cresceu para quase 900 mil, enquanto o número de cabeças de gado registrou o recorde de 3,8 milhões.

         De acordo com o IBGE, o número de bovinos em 2020 apresentou o maior aumento (8,3%) em relação ao ano anterior dentre todos os nove estados que compõem a Amazônia Legal. O número também é muito maior se comparado ao território nacional: a quantidade de cabeças de gado na Amazônia cresceu 4,2% em média, enquanto que no resto do país o aumento total foi de 1,5%.

         Um relatório do governo do Acre  afirma que o “potencial econômico dos recursos naturais do estado é imensurável” em termos de madeira, frutas e plantas medicinais. No entanto, é o gado que desempenha um papel fundamental na economia. Enquanto os produtos de madeira contribuíram com 38,7% para as exportações totais do estado em 2020, a carne e seus derivados foram responsáveis por 28,3%.

         “A economia no Acre está centrada na agropecuária, especialmente na criação de gado”, disse por telefone à Mongabay Eduardo Mitke, médico veterinário e professor da Universidade Federal do Acre. “Há pouco valor econômico nas frutas, e a indústria da borracha acabou. O milho e a soja têm crescido nos últimos dois ou três anos, mas o motor econômico mais forte no setor do agronegócio é, sem dúvida, a pecuária”.

Rio Branco tem maior rebanho

         O município de Rio Branco, a capital do Estado, tem o maior número de cabeças de gado do Acre, com 14% do total. O município de Sena Madureira é o segundo, com cerca de 365 mil. Apresentando 236 km²  de perda florestal em agosto de 2021 (15% do total registrado em toda a Amazônia), o Acre entrou pela primeira vez em terceiro lugar no ranking dos estados que mais destruíram a Amazônia no ano passado, de acordo com dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Apenas dois municípios, Sena Madureira e Feijó, desmataram 40%.

         Vários fatores alimentaram o crescimento da indústria de gado no Acre, incluindo um aumento da demanda demanda mundial por carnes e derivados, especialmente da China, de acordo com dados do IBGE. Mitke disse que a produtividade na indústria pecuária brasileira também aumentou 150% nos últimos 30 anos, permitindo que as fazendas crescessem seus rebanhos. “Há uma revolução tecnológica. É lenta, mas é uma revolução”, disse. “Com tecnologia melhorada, somos capazes de aumentar o número de animais por hectare, o que significa que podemos fornecer uma solução mais sustentável”.

         Rômulo Batista, ativista do Greenpeace Amazônia, disse que outro fator a ser considerado é a prática de apropriação de terras, em que grupos ocupam e exploram áreas públicas de forma irregular e depois as reivindicam como propriedade privada. “Infelizmente, é cada vez mais comum ter gado na Amazônia como uma tentativa de validar a propriedade rural”, disse ele à Mongabay. “[Os grileiros] colocam gado no território que tomaram para dizer que há algum tipo de produção agrícola lá, numa tentativa de legalizá-lo.”

Menos floresta, mais gado

         Ativistas têm levantado preocupações sobre a ligação entre a crescente indústria de gado e o desmatamento. “De toda a área desmatada na Amazônia brasileira que não voltou a crescer como vegetação secundária, 90% dela é algum tipo de pasto usado para o gado atualmente”, disse Batista, do Greenpeace. “Estamos vendo a destruição da Amazônia, uma floresta com a maior biodiversidade do mundo, para colocar lá duas espécies: capim e gado”.

       Informações da plataforma Mapbiomas, uma rede de ONGs, universidades e empresas tecnológicas mostra que a perda das florestas do Acre nos últimos 10 anos está fortemente relacionada ao aumento anual de terras destinadas ao gado (veja o gráfico abaixo). Em 2020, 84.925 hectares foram desmatados no Acre; neste mesmo ano, as terras destinadas ao gado e à pecuária no estado aumentaram em uma quantidade quase idêntica: 84.735 hectares, segundo os dados do Mapbiomas.

         Vários estudos indicam que a indústria pecuária é o grande motor do desmatamento, incluindo um documento de 2013 que diz que “nos últimos anos, 48% de toda a perda de floresta tropical ocorreu no Brasil, onde a pecuária causou cerca de três quartos da destruição da floresta”.

         Em 2021, com o aumento do rebanho bovino, o Acre registrou sua maior taxa de desmatamento em 18 anos, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). No total, 10% da área florestal do Estado foi cortada até agora, de acordo com o Imazon. “O Acre não é o estado mais desmatado da região amazônica”, disse Batista. “Mas se destaca por ser uma nova área de desmatamento. Há cinco, dez anos atrás, estávamos sempre falando dos estados de Rondônia, Mato Grosso e Pará. Agora, estamos de olho no Acre”.               

         Estudos apontam que é possível aumentar a produção de gado enquanto se alivia a pressão sobre a Floresta Amazônica. “Este paradigma de expansão horizontal da agricultura sobre os ecossistemas está ultrapassado”, diz um estudo de 2020, referindo-se ao método tradicional de criação de gado comumente utilizado no Brasil, onde pequenos rebanhos pastam em vastas extensões de terra. Os estudos sugerem o uso de um método mais intensivo que aumenta a produção de forma sustentável, criando mais gado em áreas menores de terra.

         O médico veterinário Eduardo Mitke disse que é “econômica, ambiental e tecnicamente viável ter gado no Acre enquanto se conserva a Amazônia”, se feito da maneira correta. Ele acrescentou que há até mesmo a oportunidade de reflorestar áreas desmatadas enquanto se aumenta a produção de gado.

         Para ele, a tendência atual de crescimento do gado no Acre não é sustentável, e os agricultores carecem de assistência técnica e conhecimentos agrícolas mais conscientes. “O fazendeiro [no Acre] não sabe como se expandir sem desmatar. Precisamos mostrar a eles outras alternativas que não prejudiquem o meio ambiente”, disse Mitke. “Se não praticarmos agricultura de maneira correta, sem dúvida acabaremos destruindo a Amazônia.”

Com informações da Agência Mongabay

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