Sistema do INPE apontou perdas 62% maiores que as do mesmo período de 2021. Números mensais são os piores dos últimos 6 anos, mesmo com as chuvas do período.

O desmatamento ilegal avança sobre áreas protegidas amazônicas e incha as perdas florestais neste ano eleitoral de 2022. O Deter-B, sistema de alertas do INPE, indica em fevereiro uma perda florestal 62% maior que a do mesmo mês de 2021. Foram 199 km² perdidos, o maior desmatamento para o mês nos últimos 6 anos. 

Somando com o mês de janeiro, também com desmate recorde desde 2016, o aumento é mais que o triplo do observado em janeiro e fevereiro de 2021, indica o monitor da floresta PlenaMata, baseado nos dados do INPE. Como mostramos, os alertas de janeiro deste ano somaram 430 km², a maior perda no mês desde 2016, início da série histórica do Deter-B.

“O período de chuvas na Região Norte (dezembro a maio) dificulta a observação por satélites e podemos ter muito desmatamento ocorrendo que ainda não foi registrado”, lembrou o porta-voz para a Amazônia do Greenpeace Brasil, Rômulo Batista.

Unidades de conservação federais e estaduais respondem por 12% dos alertas de fevereiro. Entre as mais desmatadas, estão a Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, que perdeu 14 km², e as florestas nacionais do Jamanxim e do Amaná, todas no Pará, bem como a Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Rondônia. Essas unidades e demais reservas estão em fronteiras de desmatamento que são alvos permanentes de ilícitos e de pressões políticas para sua redução ou eliminação, lembra Ângela Kuczach, diretora da Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação.

“Não é surpresa que haja grande pressão sobre essas áreas. O que salta aos olhos é a falta de fiscalização, ainda mais sobre unidades de conservação. Áreas públicas não destinadas já são foco de intenso desmatamento, mas uma linha foi cruzada e agora os crimes avançam fortemente sobre as áreas protegidas, ainda sem uma resposta à altura dos governos”, destacou. 

Os alertas do Inpe mostram que os líderes em desmates em fevereiro são Mato Grosso, Pará e Amazonas. A maioria das perdas é de corte raso. Nesses estados, as derrubadas mais severas ocorreram nos municípios paraenses de Altamira e São Félix do Xingu, e nos amazonenses de Lábrea e Apuí. Estes últimos pertencem à Amacro, considerada por especialistas a nova fronteira de criminalidade no Amazonas. Acre e Amapá não tiveram alertas no período. 

No Mato Grosso, seis em cada dez alertas para desmates de fevereiro ocorreram em imóveis com o Cadastro Ambiental Rural (CAR). No Pará, o índice foi de 24%. No Amazonas, de 8%. Com o registro, desmatadores autorizados ou ilícitos podem ser identificados pela fiscalização e órgãos do judiciário. Os números são da Sala de Situação da Amazônia, ferramenta do Inpe.

“Os números de fevereiro também são resultado do afrouxamento da fiscalização e do controle feitos pelo governo. Quanto mais desmata, mais o país emite gases do efeito estufa e agrava a crise climática global, acelerando eventos extremos como as chuvas torrenciais deste ano. O Brasil segue caminhando na contramão do combate à destruição socioambiental”, reforçou Batista, do Greenpeace Brasil.

O desmatamento também aproxima a Amazônia do colapso. Estudo recente publicado na Nature Climate Change aponta que três quartos da floresta já têm menor capacidade de recuperação diante de secas e outros eventos climáticos. A previsão é a de que grandes áreas se tornem degradadas e secas definitivamente. Isso aumentaria os riscos à manutenção da biodiversidade e do equilíbrio climático mundial.

“A situação é muito séria e grave. Como pede a Constituição, salvaguardar as áreas protegidas e a floresta é fundamental se quisermos ter um planeta com alguma chance de equilíbrio no futuro próximo. Os esforços para frear o desmatamento deveriam estar acontecendo de forma intensiva, não o contrário”, completou Ângela Kuczach, da Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação.


Reportagem do InfoAmazonia para o projeto PlenaMata.

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