O bisão-americano (Bison bison) é o maior animal terrestre da América do Norte. Chegando a pesar quase uma tonelada, esses bovinos selvagens podiam ser vistos em rebanhos que chegavam aos milhões em pradarias num passado muito distante. Sua distribuição foi tão ampla que a espécie era encontrada desde o Alasca até o norte do México.

Quando os primeiros colonizadores europeus colocaram o pé em terras norteamericanas, os bisões foram caçados e mortos até praticamente a extinção. No século 19, restaram menos de cem deles na natureza. Hoje podem ser avistados em pequenas populações, em geral dentro de reservas de proteção.

“Onde o ser humano chega, há extinção de espécies”, lamenta o biólogo Mathias Pires, professor e pesquisador do Departamento de Biologia Animal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A afirmação do especialista é fato comprovado. E não é recente: ocorreu desde que o Homo sapiens saiu da África para desbravar outros continentes. Dados históricos, baseados em registros fósseis, revelam que durante o fim do período do Pleistoceno, entre 50 mil e 11 mil anos atrás, houve extinções de muitas espécies de grandes mamíferos no planeta, seja pela caça ou pela conversão de seus habitats naturais em áreas agrícolas ou urbanas, assim como alterações no clima da Terra.

   

Foto de 1892 com uma pilha de crânios de bisões-americanos esperando para serem moídos para fertilizante nos arredores de Detroit (EUA)

“O Pleistoceno tardio é um marco temporal, a época em que começaram a acontecer as grandes migrações do ser humano a partir da África. Há uma sincronia entre a chegada do homem e o desaparecimento de algumas espécies”, salienta a bióloga Lilian Sales, pesquisadora da Unicamp e principal autora de um levantamento inédito que mapeou a distribuição original de 145 espécies de grandes mamíferos.

O estudo mostra como essas espécies tiveram suas áreas reduzidas pelas atividades humanas e, consequentemente, a alteração no tipo de habitat e clima onde elas viviam.

Na pesquisa, que conta com a colaboração também de pesquisadores de instituições nos Estados Unidos e na Dinamarca, os autores apontam que, em média, essas espécies perderam quase um terço de sua área de distribuição original.

Algumas, entre elas o rinoceronte-indiano (Rhinoceros unicornis) e o orangotango-de-sumatra (Pongo abelii), hoje ocorrem em menos de 50% dos tipos de ambientes em que existiam no passado. Outras, como é o caso do rinoceronte-de-java (Rhinoceros sondaicus) e do bisão-europeu (Bison bonasus) estão restritas a uma área equivalente a 1% da área que habitavam.

“É bem documentado nos registros fósseis o impacto da presença do ser humano na redução da distribuição de espécies de mamíferos da megafauna. O objetivo principal do estudo foi analisar se as mudanças na distribuição geográfica dessas espécies levaram a alterações nos nichos que elas ocupam”, explica Lilian.

Espécies da Ásia foram as mais afetadas

Registro de 1895 mostra um rinoceronte-de-java morto por um caçador em Ujung Kulon, extremo oeste da ilha de Java, na Indonésia

A escolha por se estudar os grandes mamíferos, a chamada megafauna, definida como aqueles animais pesando mais do que 44 kg, deu-se porque, pelo tamanho corporal maior, eles deixam vestígios fósseis mais evidentes, assim como padrões de mudanças mais fáceis de serem detectados. E justamente por seu porte é que também se tornaram vítimas mais vulneráveis aos seres humanos.

De acordo com o estudo, a Ásia é o continente onde os animais foram mais impactados pelas atividades do ser humano. Na lista dos que apresentaram a maior redução de suas áreas, além das várias espécies de rinocerontes asiáticos, constam o búfalo-asiático-selvagem (Bubalus arnee), o cervo chinês milu (Elaphurus davidianus) e o antílope órix-da-arábia (Oryx leucoryx). Estes dois últimos, inclusive, foram considerados extintos na natureza, mas graças a programas de reintrodução na vida selvagem, começam a ocupar novamente uma pequena parte de suas áreas originais.

No continente sul-americano, o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) e a onça-pintada (Panthera onca) estão entre as espécies que mais tiveram sua distribuição reduzida — com 76% e 40% de perda de seu território, respectivamente. Considerada o maior felino das Américas, a onça-pintada era originalmente observada desde o sudoeste dos Estados Unidos até o norte da Argentina. Hoje está oficialmente extinta em território norte-americano e é muito rara no México.

Refugiados climáticos

Quando Lilian fala em “alterações nos nichos das espécies”, a bióloga se refere a uma combinação de variáveis climáticas, entre elas temperatura, amplitude térmica diária e precipitação de chuvas, por exemplo. Ao serem localmente extintas em boa parte de seus habitats originais ou ao tê-los reduzidos, muitas espécies ficaram restritas a áreas em que o clima não seria o mais adequado para a sua existência.

É o que aconteceu com o rinoceronte-de-java, que hoje está restrito às florestas úmidas do oeste da ilha indonésia de Java, mas no passado ocorria em florestas baixas e de altitude, áreas pantanosas e pradarias úmidas por todo o Sudeste Asiático.

Já a hiena-malhada (Crocuta crocuta) atualmente é um animal associado tipicamente às savanas africanas, entretanto originalmente ocorria em estepes e pradarias por toda Europa e Ásia, e em uma extensão muito maior do continente africano.

Lilian lembra ainda que animais de grande porte necessitam de grandes áreas para viver e possuem baixa taxa reprodutiva, o que os ainda torna mais suscetíveis a essas mudanças.

Por essa razão, os pesquisadores já se referem a alguns deles, assim como os citados rinoceronte-de-java e hiena-malhada, como “refugiados climáticos” (É preciso esclarecer, entretanto, que o termo é usado de uma maneira diferente daquela que estamos acostumados a utilizar em relação aos seres humanos).

“Muitas espécies que conhecemos hoje na verdade se encontram em climas subótimos, não nos climas em que os seus antepassados viviam. Isso se deve porque as populações dessas espécies em climas ótimos foram extintas pelo homem”, reforça outro co-autor do artigo, Mauro Galetti, professor titular da Universidade Estadual Paulista e professor assistente da Universidade de Miami.

Diante desse cenário, os cientistas ressaltam que é preciso levar em conta essas mudanças nas áreas de distribuição histórica das espécies para se fazer projeções sobre o futuro e planejar melhores ações de conservação. Sem considerar onde esses animais já viveram originalmente, segundo os autores do estudo, podemos nos enganar sobre os ambientes mais propícios a eles e que podem ter melhores chances para impedir suas extinções.

“Ao ignorar o passado e olhar apenas para o presente, só temos a perspectiva de ambientes já depauperados. É necessário considerar também o habitat dessas espécies antes da chegada do Homo sapiens”, diz Pires.

O presidente norte-americano Theodore Roosevelt posa com uma onça-pintada recém abatida por ele durante sua expedição à Amazônia brasileira em 1913. Foto: Kermit Roosevelt/American Museum of Natural History, via Wikimedia Commons

Nos dias de hoje a grande maioria dos modelos para predizer as respostas das espécies às mudanças climáticas é baseado nas ocorrências atuais, mas se eles mostram apenas um pedacinho das áreas que esses animais ocuparam, podem estar fazendo um diagnóstico incorreto.

“Todas as espécies no planeta estão restritas no espaço por algumas poucas variáveis, como temperatura e umidade. Isso é fácil de entender, se você quer saber onde está um urso-polar (Ursus maritimus), verá que ele se encontra em regiões frias e de alta latitude e com baixa pluviosidade. Pois bem, se extinguirmos 90% dos ursos-polares, e no futuro os cientistas tentarem reconstruir sua distribuição baseados apenas naqueles que existem, terão um “mapa” errado do clima ideal em que eles viviam”, exemplifica Galetti.

O que o especialista quer dizer é que as condições climáticas no Ártico não são homogêneas. Há localidades mais quentes e mais frias, outras em que a temperatura varia mais ao longo do ano, regiões onde chove mais. Ou seja, num projeto de conservação futuro para a reintrodução do urso-polar, caso ele se torne praticamente extinto, se somente for levado em conta o mapa de sua presença atual, ele não representará a verdadeira área de distribuição da espécie ao longo dos últimos séculos. E isso pode influenciar no resultado obtido.

Para os autores do estudo, a sobrevivência da fauna do planeta depende de um olhar cuidadoso para o passado, há milhares de anos, e não somente para o nosso presente, já tão empobrecido ambientalmente.

Com  informações da Agência Mongabay

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